Jogos para mudar o mundo

Eu sei que não vou curar a fome na África através de um joguinho de contar histórias. Eu sei que não vou ter uma solução para o câncer reunindo pessoas ao redor de uma mesa para rolar dados. Eu sei disso. Mas para mim é um fato: podemos salvar o mundo através dos jogos. Qualquer jogo.

Em 2013 escrevi um jogo de criação de histórias, o PULSE. Meu único propósito era divertir pessoas. Na real eu sequer curtia muito o jogo, achava ele meio bobo e parecido com um monte de bizarrices que eu já tinha jogado por aí. Daí resolvi falar sobre ele. Resolvir conhecer mais pessoas e usá-lo como meu cartão de visitas. Era um bom cartão pois aparentemente as pessoas se divertiam muito quando jogavam ou simplesmente riam muito da forma como eu contava as histórias da produção desse jogo… produção que foi feita tão rapidamente e com um apoio tão grande comunidade que mudou para sempre a forma como eu enxergava meu trabalho e o daqueles que conhecia e conheci até hoje.

Eu estava fazendo o que eu queria e as pessoas estavam se movendo e se esforçando para me ajudar a continuar o que estava fazendo. Eu tinha menos dinheiro mas me vi muito mais satisfeito do que estive mesmo quando trabalhava em grandes agências ou mesmo desenvolvedoras de jogos e tecnologia, com um salário estável e pagando minhas contas. Em algum momento eu tinha mais vontade de falar sobre as pessoas que eu encontrava e suas histórias do que sobre meu jogo. Eu me divertia muito ouvindo as pessoas me falando sobre o meu jogo, era muito mais legal que falar sobre ele. E eu ouvi mesmo. Eu me convenci que tinha algo alí que eu não tinha percebido ainda. Só percebi quando comecei a levar o jogo em escolas infantis e ver o que as crianças estavam fazendo com o PULSE. Eles conversavam, eles negociavam, eles cooperavam, e mesmo que nenhum deles tivesse nenhuma idéia em especial, eles criavam. Lendo os registros de jogos passados, os mapas do tempo, vi que era ainda mais do que isso… eles se abriam. Alí tinha um pedaço de cada um deles que eles ofereceram uns aos outros, de uma forma bem divertida.

É o que os jogos são para mim: uma forma de conectar pessoas. Uma linguagem. Uma linguagem tão elaborada, mas ao mesmo tempo tão sutil e profunda, que convida as pessoas a se abrirem por alguns instantes. Se revelam, se entregam… e também absorvem. Eu vi completos desconhecidos se divertindo e se conhecendo através de uma mesa de PULSE, discutindo temas polêmicos e questões sociais como antigos amigos em uma mesa de bar… mas sem o álcool. Aparentemente o mundinho para onde os jogadores são transportados durante uma partida elimina uma série de barreiras que erguemos em nosso mundo, um ambiente seguro, já que todas as regras normalmente estão bem estabelecidas. É muito mais que apenas diversão, mesmo quando visando apenas diversão.

E é por isso que acredito que qualquer jogo pode mudar o mundo. Convidando desconhecidos a se apresentarem, ou grandes amigos a se divertirem juntos, trocar experiências, revelar um pouco de si. Tornar humanos mais humanos. Não vamos eliminar a fome da África, mas quem sabe nos tornando cada vez mais próximos e conectados possamos um dia buscar conexão com estas pessoas em necessidade. Não temos a sensibilidade para compreender ou a pretensão de sermos agentes dessa mudança, mas precisamos ter essa consciência. Precisamos reconhecer o poder destas pequenas interações e dar a elas seu devido valor. Mudando nosso mundo, o daqueles ao nosso redor e os daqueles que podemos alcançar… podemos sim iniciar uma corrente de mudança.

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Game designer e pesquisador de jogos. Um maluco que acredita poder mudar o mundo através de jogos. https://www.youtube.com/EnchoIndieStudio

Game designer e pesquisador de jogos. Um maluco que acredita poder mudar o mundo através de jogos. https://www.youtube.com/EnchoIndieStudio